Na minha jornada pela cibersegurança um dos aspectos que sempre me chamou a atenção foi a falta de diversidade.
Desde meus primeiros cursos percebi que eu era uma das poucas pessoas pretas na turma, senão a única. O mesmo valia para as mulheres: em toda empresa que eu passei, quase sempre dava pra contar nos dedos as colegas de profissão – o que reduzia ainda mais quando falamos de mulheres pretas.
Essa percepção me acompanhou durante toda a carreira. Nas empresas, nos grupos de discussão e nos eventos na área, homens e mulheres pretos, pardos, indígenas – sem contar pessoas trans e de todo o espectro LGBTQIA+ – são minoria na tecnologia e nos times de cibersegurança.
- Mulheres correspondem a algo entre 20% e 25% da força global de trabalho em cibersegurança.
- Nos EUA, homens afrodescendentes representam apenas 3% do total de analistas de segurança da informação. Mulheres representam 14%.
Interessante notar que isso acontece em um cenário de escassez de mão-de-obra. Certamente você já leu algum artigo, ouviu alguma palestra ou podcast, colocando a falta de profissionais como um dos principais problemas da cibersegurança.
Acredito que investir em programas de Diversidade, Equidade e Inclusão (DEI) se tornou crucial para resolver esses dois problemas, o da falta de profissionais e o da inclusão.
Neste artigo quero falar com vocês sobre como abraçar a diversidade pode ser estratégico para a cibersegurança, mas primeiro…
Um pouco de contexto
O mercado de tecnologia é historicamente composto por homens brancos.
A primeira edição do Censo de Diversidade do setor aponta que 63% dos trabalhadores em tecnologia são homens e, no recorte racial, 62% são brancos.
Essa realidade vem de diversas causas, mas dá para apontar fatores econômicos e de acesso à educação como sendo as principais delas.
O Brasil tem toda uma história de desigualdade que se perpetua na falta de oportunidades à população preta (75% das população mais pobre do país é composta de pretos e pardos), às mulheres e às minorias.
A barreira econômica é, de saída, uma desvantagem para chegar a profissões que exigem conhecimento técnico, domínio de inglês, ou mesmo um curso superior.
No caso específico das mulheres ainda há a questão da desigualdade salarial. Elas precisam enfrentar menores oportunidades de crescimento, menores salários e, claro, o machismo estrutural e, em casos mais graves, a sexualização e o assédio.
Para além de tudo isso, vivemos uma realidade na qual a tecnologia está presente em todos os estratos sociais, trazendo novos desafios de segurança que superam em muito a lógica tradicional.
Será que é possível proteger uma sociedade tão diversa quanto a brasileira pensando apenas nas ameaças que atingem as camadas mais privilegiadas?
Abraçando desafios para trazer resultados estratégicos
Tem muita empresa que ainda não aprendeu o óbvio: quanto mais diversa for sua equipe, mais ela terá capacidade para trazer ideias inovadoras, criativas e fora da caixa.
Um estudo da McKinsey na América Latina – com profissionais e empresários do Brasil, Argentina, Chile, Colômbia, Peru e Panamá – concluiu que empresas que investem em diversidade de gênero, raça e orientação sexual tendem a superar a performance financeira das que não são diversas.
No último ano, a IA trouxe um novo cenário: mesmo os especialistas, técnicos e profissionais de alta performance estão tendo que se virar para aprender uma nova tecnologia e adquirir novas habilidades.
É uma oportunidade para novas habilidades não técnicas como solução de problemas, trabalho em equipe, colaboração, comunicação, curiosidade, entre outras que não dependem de formação ou privilégio econômico.
Se é verdade que até hoje os setores de RH valorizavam currículos tradicionais, com formação acadêmica e cursos técnicos, cada vez mais os recrutadores estão atentos para a necessidade de incluir candidatos com formações diferentes, vindas de fora da TI, sem diploma, para vagas nas áreas tecnológicas.
Essa é uma tremenda chance para quem está fora dos padrões tradicionais do mercado de tecnologia.
Mas nem tudo são flores. Ainda existe grande resistência em boa parte de empresas e gestores de cibersegurança em abraçar a riqueza da diversidade.
Por outro lado, empresas, governos e entidades não-governamentais estão criando programas para promover ativamente a inclusão de minorias, gênero e raças. Conheça algumas delas…
Iniciativas para inclusão
- Womcy (Women in Cybersecurity): a maior organizaçãosem fins lucrativos da América Latina focada na redução da desigualdade de gênero, promovendo educação e mentoria para meninas e jovens mulheres dos 7 aos 14 anos
- DHS (Departamento de Segurança Interna dos EUA): com o programa Intelligence and Cybersecurity Diversity Fellowship, o DHS recruta talentos diversos, e dá preferência a candidatos que frequentem MSIs (Minority Serving Institutions), especialmente universidades voltadas para o ensino de afrodescendentes
- E-Ciber (Estratégia Nacional de Cibersegurança): A nova versão da E-Ciber (instituída em 2025) propõe a inclusão e a diversidade, incentivando a proteção e conscientização de grupos vulneráveis
A diversidade como resposta para desafios futuros
Como profissional de cibersegurança eu vejo o mercado enfrentando novos desafios que não eram realidade quando eu estava na sala de aula.
A IA, o cibercrime organizado, a evolução das ameaças e a transformação de qualquer cidadão em alvo potencial trazem um cenário que pede novas formas de pensar a segurança (o crime é inclusivo, galera, todo mundo é vítima, independente da cor, gênero ou da orientação sexual).
Por isso eu defendo que apostar na diversidade é urgente.
Mudar a lógica da cibersegurança, aquela que vai fazer a diferença nos próximos anos, depende de uma cultura inclusiva. Que aposte na educação digital, no encontro entre ativistas e profissionais.
Se você acredita que a cibersegurança é algo mais do que um negócio feito para proteger negócios, entende que ela é, hoje, parte essencial da sociedade.
E se você acredita que a cibersegurança é parte essencial da sociedade, precisa entender que a sociedade é diversa, e tem que enfrentar desafios que superam as habilidades que o mercado entende como necessárias.
Lembro de uma frase sobre inclusão que diz que ela é sobre “chamar pra dançar”, e não só “convidar para a festa”.
Com isso em mente, dá pra resolver a falta de mão de obra, mas também dá pra tornar nossa sociedade ainda mais segura.
Comunicador com +13 anos em Tecnologia e Cibersegurança, especialista em Governança de Segurança e Conscientização, com atuação em empresas como EBANX e Caju. Fundador do TecSec Podcast e do contocast O Golpe Tá Aí!, unindo abordagem técnica, narrativa e educação em segurança.

