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Mentes diferentes, defesas mais fortes: a lógica imbatível da diversidade na cibersegurança

Na minha jornada pela cibersegurança um dos aspectos que sempre me chamou a atenção foi a falta de diversidade.

Desde meus primeiros cursos percebi que eu era uma das poucas pessoas pretas na turma, senão a única. O mesmo valia para as mulheres: em toda empresa que eu passei, quase sempre dava pra contar nos dedos as colegas de profissão – o que reduzia ainda mais quando falamos de mulheres pretas. 

Essa percepção me acompanhou durante toda a carreira. Nas empresas, nos grupos de discussão e nos eventos na área, homens e mulheres pretos, pardos, indígenas – sem contar pessoas trans e de todo o espectro LGBTQIA+ – são minoria na tecnologia e nos times de cibersegurança. 

Interessante notar que isso acontece em um cenário de escassez de mão-de-obra. Certamente você já leu algum artigo, ouviu alguma palestra ou podcast, colocando a falta de profissionais como um dos principais problemas da cibersegurança. 

Acredito que investir em programas de Diversidade, Equidade e Inclusão (DEI) se tornou crucial para resolver esses dois problemas, o da falta de profissionais e o da inclusão.

Neste artigo quero falar com vocês sobre como abraçar a diversidade pode ser estratégico para a cibersegurança, mas primeiro…

Um pouco de contexto

O mercado de tecnologia é historicamente composto por homens brancos. 

A primeira edição do Censo de Diversidade do setor aponta que 63% dos trabalhadores em tecnologia são homens e, no recorte racial, 62% são brancos. 

Essa realidade vem de diversas causas, mas dá para apontar fatores econômicos e de acesso à educação como sendo as principais delas.

O Brasil tem toda uma história de desigualdade que se perpetua na falta de oportunidades à população preta (75% das população mais pobre do país é composta de pretos e pardos), às mulheres e às minorias. 

A barreira econômica é, de saída, uma desvantagem para chegar a profissões que exigem conhecimento técnico, domínio de inglês, ou mesmo um curso superior. 

No caso específico das mulheres ainda há a questão da desigualdade salarial. Elas precisam enfrentar menores oportunidades de crescimento, menores salários e, claro, o machismo estrutural e, em casos mais graves, a sexualização e o assédio. 

Para além de tudo isso, vivemos uma realidade na qual a tecnologia está presente em todos os estratos sociais, trazendo novos desafios de segurança que superam em muito a lógica tradicional. 

Será que é possível proteger uma sociedade tão diversa quanto a brasileira pensando apenas nas ameaças que atingem as camadas mais privilegiadas?

Abraçando desafios para trazer resultados estratégicos

Tem muita empresa que ainda não aprendeu o óbvio: quanto mais diversa for sua equipe, mais ela terá capacidade para trazer ideias inovadoras, criativas e fora da caixa. 

Um estudo da McKinsey na América Latina – com profissionais e empresários do Brasil, Argentina, Chile, Colômbia, Peru e Panamá – concluiu que empresas que investem em diversidade de gênero, raça e orientação sexual tendem a superar a performance financeira das que não são diversas. 

No último ano, a IA trouxe um novo cenário: mesmo os especialistas, técnicos e profissionais de alta performance estão tendo que se virar para aprender uma nova tecnologia e adquirir novas habilidades.

É uma oportunidade para novas habilidades não técnicas como solução de problemas, trabalho em equipe, colaboração, comunicação, curiosidade, entre outras que não dependem de formação ou privilégio econômico. 

Se é verdade que até hoje os setores de RH valorizavam currículos tradicionais, com formação acadêmica e cursos técnicos, cada vez mais os recrutadores estão atentos para a necessidade de incluir candidatos com formações diferentes, vindas de fora da TI, sem diploma, para vagas nas áreas tecnológicas.

Essa é uma tremenda chance para quem está fora dos padrões tradicionais do mercado de tecnologia. 

Mas nem tudo são flores. Ainda existe grande resistência em boa parte de empresas e gestores de cibersegurança em abraçar a riqueza da diversidade. 

Por outro lado, empresas, governos e entidades não-governamentais estão criando programas para promover ativamente a inclusão de minorias, gênero e raças. Conheça algumas delas…

Iniciativas para inclusão

  • Womcy (Women in Cybersecurity): a maior organizaçãosem fins lucrativos da América Latina focada na redução da desigualdade de gênero, promovendo educação e mentoria para meninas e jovens mulheres dos 7 aos 14 anos
  • DHS (Departamento de Segurança Interna dos EUA): com o programa Intelligence and Cybersecurity Diversity Fellowship, o DHS recruta talentos diversos, e dá preferência a candidatos que frequentem MSIs (Minority Serving Institutions), especialmente universidades voltadas para o ensino de afrodescendentes
  • E-Ciber (Estratégia Nacional de Cibersegurança): A nova versão da E-Ciber (instituída em 2025) propõe a inclusão e a diversidade, incentivando a proteção e conscientização de grupos vulneráveis 

A diversidade como resposta para desafios futuros

Como profissional de cibersegurança eu vejo o mercado enfrentando novos desafios que não eram realidade quando eu estava na sala de aula. 

A IA, o cibercrime organizado, a evolução das ameaças e a transformação de qualquer cidadão  em alvo potencial trazem um cenário que pede novas formas de pensar a segurança (o crime é inclusivo, galera, todo mundo é vítima, independente da cor, gênero ou da orientação sexual).

Por isso eu defendo que apostar na diversidade é urgente. 

Mudar a lógica da cibersegurança, aquela que vai fazer a diferença nos próximos anos, depende de uma cultura inclusiva. Que aposte na educação digital, no encontro entre ativistas e profissionais.

Se você acredita que a cibersegurança é algo mais do que um negócio feito para proteger negócios, entende que ela é, hoje, parte essencial da sociedade. 

E se você acredita que a cibersegurança é parte essencial da sociedade, precisa entender que a sociedade é diversa, e tem que enfrentar desafios que superam as habilidades que o mercado entende como necessárias. 

Lembro de uma frase sobre inclusão que diz que ela é sobre  “chamar pra dançar”, e não só  “convidar para a festa”. 

Com isso em mente, dá pra resolver a falta de mão de obra, mas também dá pra tornar nossa sociedade ainda mais segura. 

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