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Entre a exposição e o cuidado: Os desafios coletivos da privacidade infanto-juvenil na Internet

Simpósio do NIC.br sobre a privacidade online de crianças e adolescentes destaca a urgência da corresponsabilidade na Era Digita

Uma pesquisa produzida pelo Cetic.BR, a TIC Kids Online Brasil 2025, – apresentada na quarta-feira, 22 de outubro de 2015 – apontou que 92% das crianças e adolescentes entre 9 e 17 anos são usuários da Internet, percentual que representa 24,5 milhões de jovens em todo o Brasil que acessam a rede para diferentes atividades: usar o WhatsApp (53%), o Instagram e o YouTube (48%) e o TikTok (46%). 

Apesar da relativa estabilidade em relação à última edição, os números não deixam de ser significativos.

A pesquisa traz uma novidade ao investigar o uso de ferramentas de IA pelos jovens.

Ela revela que 59% desse público já usa a IA para pesquisas (42%), criação de textos e imagens (21%) e conversas sobre questões pessoais ou emoções (10%).

Esses são apenas alguns dos números levantados nesta pesquisa que reforçam a necessidade de um debate nada atual. Quando as crianças estão online, quem está olhando? De quem é a responsabilidade pela orientação sobre os riscos da exposição em ambientes virtuais? Qual o papel de pais, escolas e comunidade na proteção de jovens e crianças online?

Essas perguntas estiveram no centro do debate no 10º Simpósio Crianças e Adolescentes na Internet, que aconteceu entre os dias 21 e 22 de outubro em São Paulo com o objetivo de abordar temas que auxiliem na transformação da Internet em um ambiente responsável, ético e seguro para crianças e adolescentes. O Simpósio foi iniciativa do NIC.br e do CGI.br 

Na programação, além da apresentação de keynote speakers e painéis de debate, houve um painel exclusivo para apresentação da cartilha Internet com Responsa para Adolescentes, e de dados inéditos da pesquisa TIC Kids Online Brasil 2025, do CGI.br, conduzida pelo Cetic.br|NIC.br.

O TecSec esteve presente no evento. Confira à seguir os nossos destaques. 

É preciso uma aldeia inteira para educar uma criança

O dito atribuído a culturas africanas dá uma ideia do tom do evento. Se a Internet é um espaço potencial de aprendizado e compartilhamento de ideias, é também um lugar de exposição e risco para pessoas em formação. 

A recente aprovação da versão digital do Estatuto da Criança e Adolescente (ECA Digital, promulgado no último dia xx de setembro pela Presidência de República) é um reconhecimento de que a sociedade como um todo – governo, empresas, organizações não-governamentais e sociedade civil) são responsáveis pela proteção dos direitos da criança e do adolescente na Internet.

O ECA Digital reconhece que zelar pela sua segurança digital é trabalho de todos: escolas, famílias, governos e comunidade. Não se trata mais de uma responsabilidade exclusiva dos pais,

Qual sua motivação?

Por que o uso indiscriminado da Internet representa um risco maior a crianças e adolescentes?

Crianças e adolescentes sofrem riscos diferentes na Internet.

Conversamos com Daniel Becker, pediatra, escritor e ativista pela infância. Daniel foi um dos keynotes do Simpósio e falou sobre a Infância em rede: Entre a Exposição e o Cuidado. 

Daniel lembrou dos recentes casos de pedofilia ligados a influenciadores de Internet, como o exposto pelo também influenciador Felca com grande repercussão na mídia: “um dos problemas é a exposição das crianças a predadores (…) existem inúmeras formas de capturar uma criança na Internet e lesá-la no mundo digital e também no mundo real, com sequestros por exemplo”.

Crianças são particularmente vulneráveis a esse tipo de ameaça, segundo Becker: “existem inúmeras formas de um criminoso se disfarçar e enganar uma criança que, claro, já não tem discernimento para entender intenções ocultas de um adulto, muito menos um adulto que faz um conteúdo fake, que finge ser uma criança”. 

Jogos como o Roblox ou o Fortnite também estão na mira de criminosos por serem, segundo Becker, “um terreno fértil para o phishing e para crimes de racismo e grupos supremacistas”. “É um território que pede regulação”, alerta.

Riscos físicos e uso criminoso de dados digitais: é preciso estar atento!

O primeiro painel do Simpósio, onde foi discutido como orientar adolescentes online, trouxe números que dão uma dimensão da exposição desse público. Um deles: 30% dos adolescentes já tiveram contato com alguém na Internet que não conheciam pessoalmente.

Becker aponta que, entre os riscos para adolescentes estão o envio de fotos íntimas para desconhecidos: “um adulto pode se passar por uma jovem e pedir fotos, informações pessoais…”

Em casos mais graves, os jovens podem se expor a riscos reais como o sequestro. Outro dado apresentado mostra que 13% dos adolescentes já encontraram pessoalmente alguém que só conheciam online (dados do Cetic.br ). Em um caso recente, uma adolescente de Joinville desapareceu após um encontro com um amigo virtual e foi encontrada três dias depois em Balneário Camboriú, felizmente sem sinais de violência 

Uma questão que envolve toda a sociedade

Os dados apresentados pela TIC Kids Online Brasil 2025 reforçam a urgência de encarar a Internet como o novo “espaço público” da infância e juventude. 

Como o Simpósio Crianças e Adolescentes na Internet do NIC.br e CGI.br evidenciou, é urgente que o foco se desloque da responsabilidade individual para a coletiva. 

Riscos como a exposição a predadores, o phishing, o contato com desconhecidos e o potencial para crimes de ódio em ambientes de jogos exigem uma “aldeia inteira” mobilizada.

Nesse contexto, a segurança e a privacidade digital deixam de ser uma preocupação isolada para se tornar um imperativo social, reconhecido inclusive pelo recente ECA Digital. A proteção efetiva só será alcançada com a atuação coordenada de todos os setores:

  1. Pais e Familiares devem atuar como guias e mediadores, estabelecendo o diálogo e acompanhando o uso da rede para mitigar riscos de exposição e uso indevido de dados.
  2. As Escolas são cruciais na educação para a cidadania digital, integrando o tema ao currículo e fornecendo as ferramentas de discernimento de que crianças e adolescentes precisam para navegar com responsabilidade.
  3. Governos têm a responsabilidade de estabelecer a moldura legal e regulatória, como a exemplificada pelo ECA Digital, para garantir que as plataformas sejam ambientes mais seguros e para combater o crime digital.
  4. Por fim, Entidades Civis (como o NIC.br, CGI.br e o Cetic.br) e organizações não-governamentais desempenham um papel vital na produção de conhecimento, na fiscalização e na mobilização do debate público.

Somente com esse esforço sinérgico, em que cada ator assume sua parte, será possível transformar a Internet em um ambiente responsável, ético e seguro, garantindo que os direitos e o bem-estar de 24,5 milhões de jovens brasileiros sejam plenamente preservados no ambiente digital.

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